Sustentabilidade x Construção Civil: os destaques brasileiros

                Não é novidade para nós que a área da construção civil tem fundamental importância quando o assunto é desenvolvimento de um país. Todavia, esse setor é um dos que mais consome recursos naturais e, infelizmente, um dos que mais produzem resíduos também. Sendo assim, ao buscar uma forma de amenizar os impactos gerados por ele, a noção de sustentabilidade nas construções vêm crescendo de forma considerável, atingindo cada vez mais pessoas.

                No Brasil, o conceito tomou tamanha proporção que hoje somos considerados o 4º país, num total de 165, com maior número de construções sustentáveis com certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design). Ao todo, são 1.226 projetos registrados e, dentre eles, 404 já são certificados. Vale ressaltar ainda que a certificação depende do número de pontos adquiridos pela obra, os quais são distribuídos mediante alguns quesitos específicos. Assim, a pontuação varia de 40 a 110 pontos e, dependendo da quantidade acumulada, a construção pode obter os seguintes selos:

  • Selo LEED Silver, para edificações com mais de 50 pontos;
  • Selo LEED Gold, para empreendimentos com pontuação superior a 60;
  • Selo LEED Platinum, para edificações que conquistaram mais de 80 pontos.

                  Vamos conhecer então as seis edificações mais sustentáveis do nosso país:

1. Bairro Jardim das Perdizes: localizado em São Paulo, é considerado o primeiro bairro da América Latina a possuir o Processo Aqua-HQE. Isso significa que a obra é um exemplo de redução do consumo de água, de energia e de matérias primas. Ele conta ainda com um melhor aproveitamento do vento e da iluminação natural para garantir a eficiência energética, além de possuir vagas na garagem para carros híbridos e elétricos. Durante sua construção, evitou-se que mais de mil de caminhões circulassem pela cidade, já que toda a movimentação de terra restringiu-se à área interna do terreno. Vale ressaltar também que a vasta área verde presente no local não só embeleza a paisagem, mas também contribui para a sustentabilidade.

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                 Figura 1: Bairro Jardim das Perdizes

                Depois de todo o planejamento e preocupação para elaboração e execução do projeto, ele recebeu o prêmio de vencedor da categoria Sustentabilidade do 20º Prêmio Master Imobiliário.

2. Edifício Eco Berrini: também localizado em São Paulo, o edifício conquistou o selo LEED Platinum e o prêmio de destaque do ano Smacna Brasil 2011. Construído pela Hochtief em parceria com o escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos, ele economiza 40% de água e 30% de energia: para isso, suas fachadas são compostas por vidros voltados para leste e oeste, os quais permitem maior iluminação dos ambientes internos; além disso, o controle de vazão de ar condicionado e de ar externo permitem ambientes aconchegantes com menor gasto de energia.

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Figura 2: Edifício Eco Berrini

3. EcoCommercial Building (ECB): o edifício, além de receber o Leed platina por utilizar mais de 20 conceitos e tecnologias ecoeficientes, recebeu também o prêmio “Melhores Práticas Globais em Construção Verde” no Fórum Global sobre Assentamentos Humanos (GFHS – Global Forum Human Settlements). Isso se deve ao conjunto de características que promovem um ambiente sustentável, dentre as quais podemos citar: presença de painéis de energia solar, isolamento térmico em tetos e ventilação natural em todos os espaços; houve reciclagem de 97% dos resíduos na construção e as árvores nativas foram conservadas.

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Figura 3: EcoCommercial Building (ECB)

4. Edifício Eurobusiness: localizado em Curitiba, vários aspectos presentes no edifício fizeram com que ele fosse o primeiro empreendimento do sul do país a obter o selo LEED Platinum. Dentre estes aspectos, temos: redução de 50% no consumo de energia e 80% no de água comparado com um edifício convencional; utilização de elevadores inteligentes, os quais devolvem a energia gerada pelo equipamento para a rede elétrica local; presença de ar-condicionado que utiliza o calor residual do arrefecimento para aquecer água ou fornecer calor a outras divisões.

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Figura 4: Edifício Eurobusiness

5. Estádio Mineirão: apesar de muita gente já conhecer, poucas sabem que essa obra possui o selo LEED Platinum. Um de seus destaques é a área de iluminação: além de consumir 30% menos do que em outros estádios, uma usina fotovoltaica foi instalada na cobertura do estádio, a qual é capaz de captar energia solar e transformá-la em energia elétrica (o volume gerado equivale ao consumo médio de 1,2 mil casas!). Além disso, o estádio conta com reservatórios com capacidade de armazenamento de 5 milhões de litros de água das chuvas, o que gera uma redução de até 70% no seu consumo de água.

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Figura 5: Estádio Mineirão

6. Centro Integrado Fleury Ponte Estaiada: o local está instalado no edifício Tower Bridge, em São Paulo, o qual possui selo LEED Platinum devido às tecnologias presentes que garantem redução no consumo de energia e de água. O projeto, que também dispõe do selo LEED Platinum, tem foco na iluminação: como a necessidade do uso de lâmpadas é constante, apostou-se na aplicação de lâmpadas de LED. Além disso, outras características revelam o caráter sustentável do ambiente: 100% dos equipamentos de ar condicionado e ventilação possuem alta eficiência energética e medidas adotadas no uso de água potável contribuíram para redução de cerca de 40% do consumo total.

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Figura 6: Centro Integrado Fleury Ponte Estaiada

              A partir dessa breve análise das construções, percebemos que o Brasil está avançando na área de sustentabilidade, mas que muito ainda pode ser feito. Assim, devemos sempre buscar novas tecnologias e recursos para que o ramo da construção civil não seja mais reconhecida como “inimigo” do meio ambiente, mas sim exemplo a ser seguido.

Como elaborar Laudos Técnicos de Inspeções Prediais

Após a ocorrência de inúmeros acidentes em edificações, seja por falta de manutenção, obras sem acompanhamento técnico e/ou ausências de vistorias periódicas, várias cidades já apresentam em suas legislações a obrigatoriedade de realizar, de tempos em tempos, uma Inspeção Predial denominada Laudo Técnico, a ser elaborado por um profissional capacitado.

 

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Figura 01: Desabamento de dois edifícios no centro da cidade do Rio de Janeiro. De acordo com a polícia que investigou o caso, o que provocou o desabamento foi uma reforma mal executada.

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Figura 02: Acidente no Edifício Senador Derla Cardoso na cidade de São Bernardo do Campo – De acordo com laudo técnico, o acidente foi provocado por falha na impermeabilização da cobertura.

 

A elaboração de um laudo técnico exige do profissional muita propriedade no que ele observa, analisa e descreve. A observação deve ser crítica e sucinta para que não passe despercebido algum ponto de relevância. Para respaldar as análises, muitas vezes se faz necessário o emprego de ensaios tecnológicos, algo que o perito deve orientar e interpretar.

Além disso, soluções para os problemas encontrados necessitam serem relatadas considerando a segurança das construções e dos usuários, a qualidade dos procedimentos, o emprego de materiais adequados e a economia para o cliente, indicando o melhor custo benefício para o mesmo. Visto a responsabilidade deste profissional, é de suma importância que eles estejam sempre atualizados com as técnicas aplicadas, materiais e equipamentos utilizados no mercado, e com as normas e leis que regulamentam este trabalho.

 

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Figura 03: Modelo de Laudo Estrutural – DISA Engenharia & Consultoria.

 

A NBR 13752 – Perícias de Engenharia na Construção Civil é o documento que regulamenta as inspeções nas edificações. O objetivo da norma é orientar ao perito quais são as diretrizes, conceitos, critérios e procedimentos para a elaboração do parecer técnico. Neste sentido, o profissional que elabora o laudo tem por obrigação transcrever um relatório claro e objetivo, a partir dos pontos observados e de sua finalidade proposta.

 

Componentes para a elaboração de um Laudo Técnico:

INTRODUÇÃO

– Descrição da construção indicando suas características construtivas, idade, endereço, grau de agressividade do local onde ele se encontra, além de informações relevantes identificadas pelo perito;

– Classificação do objeto da inspeção;

– Croqui de situação.

– Data

DESENVOLVIMENTO

– Determinação e descrição dos eventuais danos, sinistros, anomalias, pontos relevantes, classificação de grau de risco, urgência de reparo;

– Determinação do padrão construtivo;

– Determinação do estado de conservação geral.

CONCLUSÃO

– Resultados de análises;

– Recomendações;

– Relação de documentos consultados;

– Medidas preventivas e corretivas;

– Assinatura do responsável técnico, número de registro, data e local.

ANEXOS

– Fotografias em número adequado demonstrando as condições da construção;

– Cópia da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART);

– Plantas, croquis, e outros documentos relevantes.

 

O profissional que interessa por esta área tem a possibilidade de fazer cursos de perícias e laudos, oferecidos por diversas universidades e escolas de cursos. É importante verificar a instituição e sua idoneidade, ementa do curso e o professor que irá lecionar, antes de iniciar sua especialização.

A remuneração deste profissional varia conforme a região, características da construção como área, dificuldade de acessos, insalubridade, complexidade e a experiência do profissional. De acordo com o Instituto Mineiro de Engenharia Civil a hora técnica custa em média R$220,00, acrescidos os gastos indiretos na elaboração do laudo.

Apesar de já existirem leis e normas que obrigam as inspeções prediais, ainda existe um desafio muito grande de conscientização. Os proprietários de imóveis, síndicos e zeladores precisam ter ciência de que as construções não são eternas, e que cuidados, manutenções e avaliações são tão importantes quanto os cuidados que necessitamos ter com nossa saúde.

 

COM VOCÊS, O ESCRITOR. NOSSO QUERIDO PETIANO RAIZ:

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Renato Santos,

Engenheiro Civil, especialista em Engenharia Econômica e consultor em Recuperação de Estruturas. Diretor da DISA Engenharia e Consultoria.

 

 

 

Fontes:

CREA-BA – Norma de procedimentos para elaboração de Laudos de Inspeções Prediais

NBR 13752 – Perícias de Engenharia na Construção Civil

Modelo de Laudo Técnico – DISA Soluções de Engenharia e Consultoria

IMEC – O portal do engenheiro

G1 – Queda de prédio no centro do Rio

 

 

 

 

O que esperar de um mestrado acadêmico na Engenharia?

Formamos. “E agora?”

Na colação de grau, quando um parente disse à minha amiga: “Parabéns, você é uma engenheira!”, a resposta foi: “engenheira não, eu sou é desempregada…” [sorrisos amarelos]

Infelizmente, essa é a realidade de grande parte dos jovens brasileiros atualmente. Na falta de alternativas, eles passam a considerar uma opção que até então não parecia atrativa: dar prosseguimento ao que eles sabem fazer – estudar – ingressando em um mestrado acadêmico de 2 anos.

A bolsa não é de todo ruim: R$1.500 para quem tinha perspectiva de R$0, é algo. Em algumas cidades, esse valor cobre razoavelmente o custo de vida, mas não sobra nada no fim do mês, é fato. Por outro lado, se você considerar que vários empregos iniciais estão nessa faixa de salário, R$1500 para investir na sua própria qualificação, com direito a carteirinha de estudante por mais alguns anos, começa a tornar o cenário positivo.

Para concorrer seriamente à bolsa, são 2 os principais quesitos objetivos avaliados por uma banca de seleção: participação em projetos de pesquisa durante a graduação (se tiver publicação, você tem grandes chances de passar na frente) e ter um bom Coeficiente de Rendimento (a média das notas da graduação). Inglês avançado é desejável, e as cartas de recomendação são um quesito subjetivo importante, podendo ser utilizadas em caso de desempate.

Se você tem interesse de seguir nessa área, comece a providenciar estes itens o quanto antes, pois eles levam tempo. E a cada ano, com as vagas no mercado cada vez mais limitadas, cresce a concorrência para o mestrado.

Então, de posse do seu Currículo Lattes, que você floreou o quanto deu, você se inscreveu, passou, parabéns!

Assim, no início você cai no que eu chamo de graduação parte II – sala de aula, disciplinas, provas, tudo aquilo que já tivemos o suficiente. Mas as expectativas são altas: você espera avaliação de casos reais, projetos, desafios empresariais. E aí entra a frustração: quase todas as disciplinas são teóricas. Em geral, o que se vê é um aprofundamento dos conceitos vistos na graduação.

Fato #1: mestrado acadêmico não é uma qualificação direta para o mercado.

Esses conceitos são então aplicados em projetos de pesquisa, desenvolvendo aspectos bem especializados de problemas de engenharia. Em uma analogia com a engenharia civil: você não vai dimensionar uma viga – você vai desenvolver um processo para calcular essa viga melhor do que as ferramentas atuais (ex. mais rápido, mais realista, mais otimizado…).

Para isso, são necessários meses de estudo dos processos atualmente utilizados, das propriedades da viga, do comportamento mecânico do modelo adotado, o desenvolvimento de um algoritmo de cálculo compatível com os métodos atualmente utilizados, o teste da sua ferramenta, a correção de erros e então… ufa – está pronto o seu projeto.

Fato #2: o mestrado te ensina a gerenciar projetos e solucionar problemas como ninguém (individualmente).

A sua bolsa – logo, o seu tempo de realização do projeto – é limitada. Você tem 24 meses para entender praticamente tudo sobre um assunto, desenvolver as diversas etapas do projeto, corrigir erros, começar de novo, elaborar uma dissertação e apresentá-la para profissionais que entendem tanto ou mais do que você sobre o seu trabalho, e que vão julgá-lo rigorosamente.

No fim dessa etapa, [espera-se] você tem amplo domínio de uma área relevante da engenharia, conhece seu ritmo de trabalho e estudo, foi capaz de planejar as etapas de seu projeto e realizá-lo dentro do prazo, e finalmente, passou pelo crivo de profissionais qualificados.

 

Fato #3: fazer o mestrado acadêmico não quer dizer que você necessariamente deva seguir pela área acadêmica.

Após o mestrado, você será um profissional mais maduro e consciente de suas próprias habilidades, bem como das ferramentas disponíveis na resolução de problemas. Essa é uma das razões pelas quais as empresas brasileiras estão gradualmente passando a valorizar profissionais com mestrado (porque as estrangeiras já o fazem há décadas). Embora o doutorado na área de tecnologia seja outra história por enquanto…

Na área acadêmica, eu gosto de pensar que nós resolvemos os problemas do mundo: otimização de recursos, reuso de rejeitos, desenvolvimento de novas tecnologias, melhor compreensão de mecanismos… enquanto boa parte do setor privado está ocupadíssima em causar estes problemas.

Após trabalhar em empresas privadas, na qual meu suor não era valorizado e certamente não se convertia em ganho financeiro [para mim], eu optei pela carreira acadêmica. Deixei de lado uma proposta de emprego e os processos seletivos para trainee e me preparei para encarar sala de aula, muita leitura e baterias de ensaios experimentais.

Antes de tomar essa decisão, me informei bem sobre o assunto com professores de confiança, e já sabia o que me esperava: mais 6 anos de estudo ganhando bolsas, aprender e dar aulas até o fim da vida, salários inferiores ao de colegas no mercado, todos os entraves do serviço público… não ter chefes no seu cangote, pesquisar dentro dos temas que você gosta, mudar de área quando bem entender, desenvolver tecnologias para seu país e, por fim, [contribuir para] salvar o mundo.

 

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Espero que esse artigo ajude na sua decisão também. É muito triste ver colegas que estão no mestrado porque “não tinham outra opção”, ou chegam aqui esperando aprender ferramentas de mercado e dão de cara com equações, algoritmos e provas. Mas por experiência própria: isso passa logo, e a realização de ver o seu projeto tomando forma não-tem-igual.

Com planejamento e metas, é possível realizar um projeto de qualidade, fazer contatos, e ser valorizado tanto pelo mercado quanto pelo meio acadêmico. Essa é a carreira que eu decidi seguir. Reflita bem se esse é o seu perfil e, se estiver preparado, bem-vindo ao clube!

 

COM VOCÊS, A ESCRITORA. NOSSA QUERIDA PETIANA RAIZ:

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Júlia Castro Mendes,

Pesquisadora, professora e doutoranda em Engenharia Civil.

Na jornada para salvar o mundo, gosto de escrever sobre desenvolvimento pessoal para jovens profissionais.

Esse post foi originalmente publicado no meu LinkedIn.