Impactos ambientais em grandes empreendimentos – cimento

A abordagem de hoje será sobre o cimento. Sem dúvida, um dos materiais mais utilizados no setor da construção civil. A ideia é nos familiarizarmos com esse importante setor e trazer à tona dados relevantes sobre alguns impactos ambientais causados pela fabricação de cimento.

Para isso, escolhemos apresentar uma imponente fábrica de cimento, a LafargeHolcim, com sede próxima à cidade de Juiz de Fora. Serão apresentadas as tecnologias inovadoras utilizadas pela empresa, que também busca pelo desenvolvimento sustentável.

BREVE APRESENTAÇÃO DA HOLCIM

A empresa LafargeHolcim é composta pela união de dois grandes grupos, oriundos da França e Suíça. Está presente em mais de 90 países e é conhecida pela fabricação de cimento, concreto e agregados.

Em maio deste ano, foi concluída a expansão da cimenteira, unidade Barroso, que pretende transformar ainda mais a produção de cimento e suas influências ao redor. Houve investimento de quase R$2 bilhões e cerca de 3000 trabalhadores, no auge das obras.

A proposta, alcançada, foi de triplicar a produção de cimento, que passa a ser de 3,6 milhões de toneladas de cimento por ano. A mesma buscou inovações da Itália, Alemanha, Espanha e França. Podemos citar a incorporação da correia transportadora e do maior moinho de cimento do mundo. Isso tudo mantém seu reconhecimento como a mais moderna fábrica de cimentos do Brasil, atendendo à grande demanda de cimento da construção civil.

(Vale lembrar que o PET já realizou uma visita técnica à fábrica em novembro de 2014. Para quem ainda não viu o post, confira: PET na Holcim.)

fabrica

Fábrica de cimentos da LafargeHolcim em Barroso (MG).

Neste texto, iremos direcioná-los a um olhar crítico e ambiental sobre os impactos da produção de cimento e as medidas mitigadoras para minimizá-los.

Interessante fazer a análise de que todo material possui um ciclo de vida¹. Isso mesmo! É um estudo sobre os impactos causados desde seu “nascimento” ao fim de sua vida útil.

Nesse âmbito, é possível citar alguns “passos”: extração da matéria prima, transporte até a fábrica, produção, aplicação, uso e manutenção e etapa final. Os mesmos serão explanados a seguir:

  • EXTRAÇÃO DA MATÉRIA PRIMA

Nesta etapa inicial, há exploração das minas de calcário. O calcário (CaCO3) ainda é o principal constituinte do cimento. Aquele utilizado pela Holcim é extraído na Mina de Mata do Ribeirão, localizada no município de Prados (MG).

 

  • TRANSPORTE ATÉ A FÁBRICA

Na Holcim, o transporte do calcário, a granel, é realizado através de uma correia transportadora aérea, Flyingbelt, de seções circulares e sustentação por cabos. A mesma tem origem italiana e é considerada a maior desse tipo do mundo, com uma extensão de 7,5 km em linha reta.

correia

Utilização da Flyingbelt para transporte de calcário – fábrica da Holcim em Barroso.

A utilização desse sistema é benéfica por oferecer a capacidade de adaptar às mais difíceis situações topográficas e contribuiu para grande redução dos impactos ambientais, em detrimento dos outros tipos de transporte (como o térreo). Ser silencioso diminui os impactos sonoros, por exemplo. Seu formato côncavo aumentou a estabilidade do transporte e o coeficiente de enchimento, diminuindo também a geração de resíduos sólidos.

O calcário extraído é, então, levado até a unidade de britagem secundária, inserida no perímetro da mina Capoeira Grande, em Barroso. Serão transportadas cerca de 1.500 t/h, a uma velocidade de 4,1 m/s, para abastecer a produção ampliada da unidade de Barroso.

  • PRODUÇÃO DO MATERIAL

 

processocimento

Processo de produção do cimento.

As etapas do processo de produção do cimento, empregadas pela Holcim, já foram abordadas e detalhadas no post sobre a visita técnica à fábrica, acima referenciado. Se quiser conferir os componentes do cimento, visite também: cimentos Portland.

Mas é importante nos atentarmos que há grande quantidade de particulados e poluentes durante a produção do cimento. Fato impressionante é sobre a emissão de gás carbônico no Brasil: 610 toneladas de CO2 por kg de cimento produzido.

1. Potencial poluidor

O potencial poluidor de indústrias como essa é identificado e classificado por órgãos governamentais. Pela legislação do estado de Minas Gerais, temos que:

ClassCimento1

Classificação das fábricas de cimento segundo o Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM).

tabela

Relação entre o porte do empreendimento e seu potencial poluidor – segundo Deliberação Normativa COPAM Nº 74/2004.

 

A partir desses dados, temos uma melhor compreensão acerca do quanto uma fábrica polui e sobre a importância desses dados para a gestão de um empreendimento. Apenas para exemplificar, é possível obter uma classificação da Holcim.

Como a Holcim se enquadra perante as classificações:

  • Potencial Poluidor: Médio (como toda fábrica de cimento);
  • Porte: Grande (dada sua capacidade de 3,6 milhões ton. de cimento/ano, com sua expansão).
  • Empreendimento de CLASSE 5.

2. Atendimento às legislações ambientais

Os licenciamentos Prévio, de Instalação e Operação (LP, LI e LO, respectivamente) tornam-se, portanto, obrigatórios. Tivemos conhecimento de que a Holcim obteve as licenças ambientais (LP e LI) para expansão da fábrica, concedidas por órgão ambiental responsável, em abril de 2012. As obras se iniciaram no mesmo mês.

3. Medidas mitigadoras

As empresas, felizmente, reconhecem que suas atividades interagem com o meio ambiente. São também cobradas pelas instituições responsáveis pela fiscalização e aprovações para funcionamento das mesmas. Por isso há, em todo o mundo, preocupação em reduzir os impactos negativos a fim de atingir o desenvolvimento sustentável. Uma dessas inovações foi comentada em outro post do blog: cimentos mais verdes.

Por parte da Holcim, podemos citar:

  • Com a instalação do filtro de manga, as emissões de particulados pelas chaminés se manterão abaixo dos 10 mg por m³, volume menor do que os 50 mg por m³ exigidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama);
  • A cobertura dos estoques de carvão irá reduzir a emissão de poeira fugitiva;
  • O resfriamento dos equipamentos da planta será feito com água recirculada da unidade. Há, também, coleta das águas da chuva;
  • Para o novo forno de clínquer, será possível utilizar combustíveis alternativos, como borras oleosas, graxas, serragens e pneus, reduzindo o consumo de combustíveis fósseis;
  • No cimento, há 30% de escória industrial, uma forma de aproveitar os resíduos, reduzindo a extração de calcário das minas;
  • Instalação de coleta seletiva do lixo e estação de tratamento de esgoto, no que diz respeito aos resíduos sólidos.

Espera-se, também, redução no consumo de energia elétrica. E a Holcim foi a primeira cimenteira da América Latina a obter certificação ISO 14001, em 2000.

moinho

Maior moinho vertical do mundo na fábrica Holcim, em Barroso.

4. Desenvolvimento sustentável?

Algumas ações em prol da sustentabilidade são, no entanto, exigências ambientais. Outras, acordadas entre órgãos e indústrias como, por exemplo, a redução de alguns impostos que devem ser pagos. É preciso o questionamento sobre algumas atitudes, para que não sejam apenas um “marketing verde”.

A recuperação das áreas degradadas usadas pelas indústrias (como na expansão da Holcim) faz parte, na verdade, de um plano instituído pelo Decreto Federal 97.632 (1989), o Plano de recuperação de Áreas Degradadas (PRAD).

Segundo o decreto, “Os empreendimentos que se destinam à exploração dos recursos minerais deverão, quando da apresentação do EIA/RIMA², submeter à aprovação do órgão ambiental competente, plano de recuperação de áreas degradadas.”

Além dessas, outras iniciativas devem ser tomadas quanto à responsabilidade socioambiental desses empreendimentos. Temas de grandes relevância são: utilização dos recursos (como energia, água, matéria prima), coprocessamento de resíduos sólidos, preservação da biodiversidade, combate às mudanças climáticas e melhor relacionamento com a cidade (choque de uma fábrica de 100 mil m2 numa cidade de 20 mil habitantes, exemplificando a Holcim  em Barroso).

  • ETAPAS SEGUINTES

 

Após esses procedimentos, ainda temos a utilização do material produzido, o cimento. Após sua fabricação, será necessário transporte até os canteiros de obra, onde será consumido. (Para maiores informações sobre as aplicações e tipos de cimento, veja nosso post: cimentos Portland)

E, assim, seu ciclo é incrementado ao das construções que farão parte. Por isso, haverá manutenção dessas edificações, por exemplo, posterior demolição e descarte, reciclagem ou reuso dos materiais primários.

Para finalizar…

A poluição está presente antes, durante e após a fabricação de um material, como na fabricação de cimento. Aqui foi apresentada apenas uma faceta disso. Cabe a nós, como estudantes e futuros profissionais da área, compreender os riscos e impactos de um empreendimento e propor alternativas para modificar algumas situações; mantendo-se o respeito às leis e, caso seja necessário, sugerir outras possibilidades voltadas para o verdadeiro desenvolvimento sustentável.

¹ Se você é estudante de engenharia civil da UFJF, poderá estudar esse conteúdo em “Construção de Edifícios – CCI018”, disciplina ministrada no oitavo período pelo Departamento de Construção Civil.

²  EIA/RIMA: Estudo de Impactos Ambientais (EIA) e Relatório de Impactos Ambientais (RIMA). Ambos presentes na Avaliação de Impactos Ambientais (AIA), um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente. Ver resolução nº 01/1986 do Conama.

 

Expansão Holcim

Holcim Sustentabilidade

ISO 14001

Revista Minérios

Indústria Brasileira de Cimentos

Decreto Federal 97.632 (1989)

COPAM Nº 74/2004

Resolução CONAMA Nº 001/1986

 

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