PET Civil entrevista – José Carlos Süssekind

José Carlos Süssekind, 67, engenheiro estrutural, autor de cinco livros didáticos de análise e cálculo de estruturas e responsável técnico de grandes obras de engenharia que, em sua maioria, foram projetadas por Oscar Niemeyer.

Nascido no Rio de Janeiro, em 1947, Süssekind graduou-se em engenharia de estruturas em 1969 e em 1970 tornou-se mestre em estruturas e fundações, ambos pela PUC-RJ. O engenheiro se destacou no cenário da engenharia pela importância das obras em que participou e, sobretudo, pelas estruturas (nada convencionais)  que dimensionou para o arquiteto Oscar Niemeyer.

A parceria e a amizade entre o engenheiro e o arquiteto começou quando o primeiro ainda era estagiário de um escritório de engenharia e perdurou por mais de 40 anos, durante os quais foram construídas importantes obras, como: o Sambódromo da Marquês de Sapucaí, a Cidade Administrativa de MG, a sede da Procuradoria Geral da República, a Linha Vermelha, os 500 CIEPs, o Museu Nacional de Brasília e a Universidade de Constantine, na Argélia.

Algumas perguntas para José Carlos Süssekind:

  • O que o levou a escolher a engenharia civil?

Mudo a pergunta e respondo o que me fez escolher a engenharia. Aliás, como é difícil, aos 17 anos, ontem, hoje, sempre, se escolher com absoluta convicção uma futura profissão; talvez seja uma das apostas de mais  alto risco que se  faz  durante a vida. Quando aluno do que hoje seriam o primeiro e segundo graus, além das matérias ditas “ cientificas”,  eu gostava também, de historia, geografia, literatura. De modo que… hesitei. Cheguei a fantasiar me dedicar a arqueologia (na época, um livro fascinante, escrito quase como que um romance – chamado Deuses, Túmulos e Sábios, me inspirava), pensei nas alternativas de Direito e Diplomacia,  pensei com muita  ênfase na hipótese de ser professor (minha família quase toda era de professores) mas, pelo senso prático, por ser uma profissão com inequívoco potencial de mercado de trabalho a época, escolhi a Engenharia. E nunca me arrependi. Dentro dela, desde logo, quis ser engenheiro estrutural (portanto engenheiro civil) – me fascinava poder vir um dia a conceber uma ponte, para dar um exemplo.


  • Quais principais mudanças você pôde observar durante a sua trajetória profissional e quais você gostaria de ver para o futuro da engenharia?

As mudanças, quase inacreditáveis em sua velocidade, foram no mundo a volta, a emergência e a vinculação de nosso dia a dia a informática, as comunicações em tempo real. Nos últimos 50 anos, talvez se tenha “avançado” (em tecnologia) mais do que em toda a historia anterior da humanidade. Vi, por exemplo, a primeira televisão colorida quase aos 20 anos de idade no hall de um hotel na Áustria – me lembro como fiquei maravilhado. Isto foi há menos de 50 anos!

No trabalho do dia a dia, na engenharia, não poderia ser diferente. E o progresso tecnológico, diabolicamente, impiedosamente, foi um eliminador inflexível de postos de trabalho e de modo de trabalhar. Quantos profissionais tiveram que se reinventar, uns sucedendo outros soçobrando.

Antigamente, escritórios pequenos ou médios ou grandes empresas de projetos ou construção tinham andares e mais andares de desenhistas, datilógrafas, telefonistas, secretárias. Hoje o valor agregado esta na essência na concepção (que a maquina não pode fazer por você – pode, claro, lhe ajudar muito a fazer cálculos mais rápidos, desenhos mais fáceis de serem corrigidos e ajustados, etc.) e o tempo dedicado a coisas mais periféricas diminui, tudo se otimizou, a produtividade cresceu.

Por ter tido a oportunidade incomum de lidar, durante diferentes estágios da minha carreira, com projetos de escala realmente grande, me lembro do tempo em que escrevia cartas a mão, depois datilografas batiam a maquina, me lembro dos incontáveis telefonemas, me lembro da trabalheira que era a correção de desenhos quando alguma modificação em projeto devia ser feita.

Hoje, tudo é mais rápido e simples: eu escrevo minhas cartas (na verdade, e-mails na maior parte dos casos) no computador, (como é fácil corrigir!); as arquivo eletronicamente eu mesmo; telefonemas são menos da décima parte, porque me disciplinei a acordar muito cedo e, ainda em casa, passo de 1 a 2 horas, escrevendo ou respondendo a e-mails –assim meus colegas de trabalho , quando chegam a ele, já tem respostas ao que me encaminharam e vice-versa. O tempo rende mais. Eu volto mais cedo para casa. E quando necessário, e quase virou um hábito, trabalho, com a ajuda da informática, a noite ou em parte dos fins de semana, em casa. Não cheguei ainda ao ponto do home-office. Mas talvez esteja próximo…

Às vezes tenho alguma nostalgia, muito fugaz, da forma antiga, onde se ficava mais próximo das pessoas todas, mas o mundo só anda para frente – e que coisa fascinante, você daqui poder estar em contacto e fazer reuniões olhando o rosto de quem está do outro lado do oceano. Isto é uma maravilha!


  • Qual foi o seu maior desafio ao longo da carreira?

As carreiras tem constantes bifurcações, oportunidades, ameaças e em cada uma delas se apresenta o novo maior desafio, que apaga o anterior. Mas para não deixar sem resposta e poder, ainda, relembrar amigos queridos, digníssimos, decisivos na minha vida subsequente, retroajo a construção do sambódromo do RJ: Um belo dia, meu amigo-maior, insubstituível, inesquecível, Oscar Niemeyer, como o fazia, entusiasmado a cada novo projeto  que surgia, me chama para contar que Darcy Ribeiro, então vice-governador do governador Brizola pedira para ele projetar o que seria o futuro sambódromo. Era inicio de setembro e queriam que a obra ficasse pronta para o próximo carnaval. Eu era muito, muito jovem – aparentava talvez ter 10 anos a menos do que tinha – ainda, trabalhava sentado e fechado (no bom sentido) num escritório, na atividade de engenharia estrutural e nunca fora exposto à mídia, governantes ou a atividades outras que não fossem projetos e projetos de estrutura. Oscar fez o desenho – como era deslumbrante o seu traço; com que facilidade as formas e soluções surgiam! – e como seu engenheiro estrutural, me levou a reunião decisiva, que ocorreu num 7 de setembro no apto. do governador, que ficava a poucas quadras (na avenida atlântica), de onde era o escritório do Oscar. Na reunião, eu, Oscar, Brizola e Darcy.  Dos 4, só eu estou vivo hoje. Como sinto saudade, como tenho gratidão pelos outros 3, que já se foram! A pergunta crucial foi feita e endereçada a mim pelo governador: “Dá para ficar pronto?” E eu (até hoje me espanto com a audácia, da resposta…) disse “Nunca se fez igual até hoje neste prazo, mas eu acho que dá”.

Na sequência, e tudo com a rapidez quase que da luz,  fui nomeado, a revelia e sem ser consultado, como responsável pela construção: cuidei da contratação e fiscalização dos construtores, fiz o projeto estrutural, precisei enfrentar contestações (diziam que não ia ficar pronto, depois que ia cair porque obra tao rápida não poderia ser bem feita, e assim por diante). De uma hora para a outra fui retirado da proteção e tranquilidade do anonimato e jogado diante  da mídia (nos retratos de época, pareço um menino, magro, mal vestido e de olhar quase assustado), e dos jogos políticos que atrás se escondiam (quem fazia oposição ao governador Brizola, aproveitava a construção do sambódromo como pretexto e eu, que na verdade não tinha qualquer filiação ou atuação politica, de repente me vi em meio a este mundo – áspero, quase intolerável – mas tendo ao lado gente da honestidade e honorabilidade dos 3 inesquecíveis companheiros maiores nesta empreitada).

Hoje, rememorando, sei que ali – sem eu saber, sem eu planejar, sem ter tido tempo sequer de decantar isto  enquanto as coisas caminhavam, céleres – acabou sendo jogado um jogo de tudo ou nada; o fracasso , mesmo que parcial  talvez fosse um ponto final na minha carreira.

Em contrapartida, o bom êxito desta grande aventura, fez com que  inexoravelmente, nunca mais eu ficasse sendo “apenas” um engenheiro estrutural. No fim das contas eu acabara cuidando de um projeto global – tudo se passando diante dos olhares de todos – e gerenciando-o em todos os itens, inclusive naquele mais difícil e ardido para mim, pois para tal não tinha sido preparado: a exposição pessoal.


  • A seu ver, qual o principal diferencial que um profissional da engenharia deve possuir?

Eu acho que todas as pessoas, em qualquer profissão, devem ser modestas, humildes e altivas ao mesmo tempo, perseverantes. Devem ser corajosas. Devem manter visão crítica, sobretudo de si próprio;  tentar ter e implementar ideias novas, não se conformar com o status quo anterior e, assim, ousar.  Responsavelmente, é claro.

Acho, olhando para trás, que ousei e continuo ainda ousando, muito, talvez até demais. É preciso movimentar o jogo da vida , para que ela valha a pena ser vivida.

Uma vez em Harvard me disseram que, no trabalho se precisa ter “lots of fun”.  É isto mesmo, passamos boa parte de nossa vida por conta do trabalho. Ele tem que ser prazeroso, até divertido. Disseram isto em Harvard, mas era  assim que Oscar Niemeyer funcionava. Espero ter aprendido com ele. Sempre tentei fazer assim – e quando assim não foi, eu fiz ajustes  na carreira. Nunca abri mão de procurar ter  “lots of fun”. Nunca me conformei com marasmos ou com mediocridade e hipocrisia a volta e acho que tive  a felicidade de encontrar dentro de mim a coragem de mudar (porque é difícil se dar o passo final, decisivo, as hesitações sempre surgem), quando me pareceu necessário.  Mudar mesmo quando isto significou largar, por exemplo, o conforto, mas o conforto medíocre,  de estar na cúpula de uma grande empresa de engenharia, mas que na verdade era o desconforto  de ter pouca gente com quem me sentisse bem  e com quem valesse a pena interagir nesta cúpula a minha volta. E como fiz bem a cada vez que mudei:  como fiz bem em não me acomodar e lutar  pelo “lots of fun” e por querer estar com gente corajosa e digna como meus 3 amigos com os quais tive, por exemplo,  o privilégio de construir o sambódromo, os ciep’s e a linha vermelha no meu estado natal.


  • Durante os anos de convivência e parceria com o arquiteto Oscar Niemeyer, qual foi o seu maior aprendizado?

Aprendi tudo. Tudo mesmo. E espero ter apreendido um pouco da sua qualidade maior, maior que o seu gênio, maior que sua grandeza, maior que sua sensibilidade: a generosidade.

Oscar foi a pessoa mais generosa que jamais existiu. Nunca haverá outro igual, nunca deixo de pensar nele, todos os dias da minha vida. A saudade que sinto dele é  impossível de  traduzir em palavras. Só me consolo ao lembrar que eu tive o privilégio de tê-lo, durante mais de 40 anos, por todos os dias da minha vida, como meu melhor amigo. E é algo de quase mágico, porque, na verdade eu sou de duas gerações abaixo da dele: 40 anos de diferença de idade nos separavam. E, no entanto, ele era tão atual, tão antenado, tão contemporâneo que, as vezes  podia te parecer que eu era mais velho do que ele.


  • Das obras que já projetou, qual você considera a mais complexa e qual você considera a mais importante?

Por exemplo, a complexidade em prazo do sambódromo (as estruturas são simples) é incomum. Por exemplo a necessidade do custo por  metro quadrado dos Ciep’s ser inferior em 30% ao de uma construção similar (já que foi multiplicado mais de 500 vezes) o tornou complexo. Igualmente, a necessidade de a Linha Vermelha, via expressa que liga o aeroporto a zona sul do RJ, devido ao fato de que, 11 meses após se decidir pela construção, 105 chefes de Estado a estariam usando, a tornou singular.

E há os recordes estruturais, que alguns, gentis para com um velho colega gostam de chamar de recordes mundiais. Gosto em especial (sempre se tem recordação dos projetos mais recentes) do Palácio do Governo no Centro Administrativo de MG, com  um espaço livre coberto, de quase 150 metros sem uma coluna sequer, criando uma construção suspensa, que parece flutuar.


  • O que o motivou a produzir livros didáticos de cálculo de estruturas? Está em seus planos uma nova edição?

Foi obra do acaso. Aliás, como quase tudo na vida. Quando eu estava prestes a me formar, morreu um grande professor na PUC-RJ, Adhemar Fonseca. E se redistribuíram os  professores existentes e algumas lacunas surgiram. Assim, recém formado, me vi a testa de disciplinas de análise estrutural. Havia falta de apostilas, de livros texto e ai topei o desafio de escrever, em 1 ano, uma obra, em 3 volumes, com 25 anos de idade. Funcionou bem. Na sequência natural, vieram  só volumes sobre Concreto Armado. Fiquei feliz e muito surpreendido com a acolhida generosa que estes livros tiveram por parte de meus colegas. Foram muitas, muitas edições. E com a evolução, sobretudo da informática, alguns dos métodos e processos que os livros abordam se tornaram obsoletos. Mudanças nas unidades utilizadas em projeto e evoluções em artigos das normas brasileiras de Concreto, mesmo não alterando a parte cientifica e didática dos meus livros, recomendariam uma revisão, radical, dos mesmos. Por isto, há um bom tempo, proibi sua reedição. Semana passada, mesmo, uma editora me procurou me pedindo reconsiderar. Mas tenho absoluta convicção de que eles já cumpriram o seu papel e que algo de diferente, novo, não uma mera revisão/adaptação é o que deve ser feito. Estou certo que jovens colegas meus haverão de fazê-lo. Talvez já o estejam fazendo neste momento, quem sabe? E por isto, não os republicarei.


  • Como você enxerga a Engenharia Civil brasileira e seus engenheiros em face a outros países?

Maiúscula. Competente. Nada devemos a ninguém.


  • Para finalizar, um conselho para quem esta começando o curso de engenharia civil e um para quem está terminando.

Em principio, acho pretensioso sair dando conselhos. Até porque eles sempre são fortemente influenciados e limitados  pelas vivências de quem os está dando.

Se eu pudesse acrescentar ou reenfatizar algo ao que já disse anteriormente, e não falo para tal ou qual tipo de profissão, eu relembraria a importância da modéstia, da coragem, da humildade e de um certo não-conformismo.

Mas, de fato, acrescentaria um ponto a mais, neste caso autobiográfico: Os principais trabalhos que fiz e tive  acabaram tendo como  ponto em  comum o ato de conversar agradavelmente com pessoas. Isto sempre me trouxe real “lots of fun”. Que possivelmente, tiveram sensação agradável – ou ao menso tolerável, senão não me contratavam… – durante as conversas. E pessoas as mais diversas, de todos os matizes e formações culturais, de interesses  os mais diversos.  Eu estou certo de que não terá sido minha eventual capacitação técnica  especifica que as fez confiar a mim trabalhos importantes. É claro que isto era um pré-requisito evidente. Mas, o que realmente sempre pesou e durante projetos que as vezes demoraram anos sendo implementados, foram as conversas acerca de temas não relativos aos próprios projetos. Conversas gerais.  Conversas gerais requerem cultura geral, cultura não – especialista. E volto a origem: por sempre ter apreciado e lido sobre história, música, política, etc, na verdade  creio ter conseguido manter conversas gerais adequadas  e, devo confessar, muito prazerosas para mim, na maior parte das vezes. Fosse com Darcy, merecido imortal de nossa Academia, fosse com Brizola, que não teve a oportunidade, dada a pobreza de infância de receber uma formação cultural tão sofisticada quanto a do Darcy,  fosse no inicio com o querido Oscar (certamente haviam dezenas e dezenas de engenheiros muito mais competentes e experientes do que eu, quando ainda tão jovem, ele me escolheu para ser seu parceiro estrutural pelos próximos 40 anos), ter uma cultura geral mínima é fundamental, central.

E isto, não somente para fins profissionais. No fim das contas , os interesses mais gerais são os que preenchem  lacunas e os que acabarão nos fazendo companhia quando, mais longevos, tivermos que enfrentar o dificílimo momento – e não falo sob o prisma material – da aposentadoria.  Neste momento, que a boa medicina cada vez mais viabiliza, contaremos, mesmo, é com nossos afetos e com nossa cultura geral. E, claro, com médicos e remédios (espero que bem poucos, em ambos os casos).


Galeria de Imagens: obras em que José Carlos Süssekind participou.

O PET Civil agradece ao engenheiro José Carlos Süssekind pela disponibilidade e boa vontade em participar desta entrevista. 

Fontes: Revista Téchne, OGlobo, Wikipedia.

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6 pensamentos sobre “PET Civil entrevista – José Carlos Süssekind

  1. Vocês estão de parabéns. Excelente entrevista!
    Muito interessante, conhecer esse lado pessoal de um dos maiores ícones da Engenharia Civil.

  2. Feliz em ter participado da Linha Vermelha ! Deu td certo graças a garra e inteligencia e competencia !!!!
    Gestão é tudo !!!!!!

  3. Muito bom!
    Parabéns a todos os envolvidos, gosto muito dos livros dele e coincidentemente tenho 25 anos, idade em que ele virou professor da PUC.

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