Engenheiros notáveis – Joaquim Cardozo

joaquim cardozo

Não visualizo qualquer incompatibilidade entre poesia e a arquitetura. As estruturas planejadas pelos arquitetos modernos são verdadeiras poesias. Trabalhar para que se realizem esses projetos é concretizar uma poesia.

— Joaquim Cardoso

Olhando para o Palácio da Alvorada, em Brasília, o primeiro nome que ocorre à maioria das pessoas é Oscar Niemeyer, arquiteto que o projetou.  Mas poucos sabem quem está por trás das espetaculares colunas brancas, apoiadas em apenas um de seus vértices. Joaquim Cardozo (1897 – 1978) foi o engenheiro responsável pelos cálculos de muitas obras de Niemeyer.

Oscar Niemeyer, Joaquim Cardozo e Paulo Werneck na Pampulha, em 1944

Oscar Niemeyer, Joaquim Cardozo e Paulo Werneck na Pampulha, em 1944

Cardozo foi poeta e engenheiro civil, além de chargista, professor universitário, filósofo, editor de revistas e desenhista. Essa percepção artística, difícil de encontrar em engenheiros, foi possivelmente o que possibilitou a parceria de sucesso com Niemeyer. Os dois compartilhavam a idéia de que a arquitetura era, antes de tudo, artística, e que era possível conciliá-la com poesia e engenharia. O engenheiro compreendia as formas inusitadas do arquiteto e não tentava adequá-las ao que era estabelecido para as construções, olhando para um projeto de forma a torná-lo possível, com a matemática e os materiais à disposição para isso.

A amizade começou em 1940, época em que Niemeyer já despontava como símbolo da arquitetura moderna e Cardozo ganhava experiência na área de engenharia, trabalhando no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPhan), no Rio. A primeira obra em que os dois trabalharam juntos foi o Conjunto Arquitetônico da Pampulha (1944).

Mas, sem dúvida, a harmonia entre arquiteto e engenheiro foi alcançada na construção de Brasília, onde os desafios para erguer os desenhos de Niemeyer foram grandes.

Anéis de aço da cúpula invertida na Câmara dos Deputados

Anéis de aço da cúpula invertida na Câmara dos Deputados

Conta-se que Cardozo ligou para o arquiteto às duas da manhã para dizer “Encontrei a tangente que vai permitir que a cúpula pareça apenas pousada na laje”, referindo-se à cúpula invertida da Câmara dos Deputados. Tal estrutura foi possível de ser realizada devido a uma estrutura de anéis de aço embutidos no concreto.

A beleza de obras como o Palácio do Planalto e o Palácio da Alvorada está no modo como elas tocam o chão, com bases delicadas. Isso foi possível pois o engenheiro usava uma quantidade de ferro maior que o indicado pela norma da época, que era 6% para estruturas de concreto. Joaquim Cardozo utilizava 20%. Isso permitia que as colunas fossem esbeltas, mas fortes o suficiente para sustentar a laje do Palácio. Atualmente, devido aos avanços da tecnologia e dos materiais utilizados, é possível obter o mesmo resultado utilizando apenas 3% de ferro.

Joaquim Cardozo também foi o engenheiro responsável por obras como a Catedral Metropolitana de Brasília

Detalhe de uma das colunas do Palácio da Alvorada

Detalhe de uma das colunas do Palácio da Alvorada

e pelo Edifício JK (em Belo Horizonte).

Não se sabe a maneira como o engenheiro fazia seus cálculos, mas que ele intuía primeiro a estrutura para depois calculá-la. Tudo no lápis, sem auxílio de computador.

Porém, em 1971, Cardozo envolveu-se em uma polêmica durante a construção do Pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte. Obra desenhada por Niemeyer e calculada por ele, o Pavilhão desabou, matando 69 operários. Joaquim Cardozo foi condenado por erro de cálculo, mas mesmo sendo mais tarde absolvido de tal acusação, nunca se recuperou do baque. Após o ocorrido, caiu em profunda depressão, vindo a falecer em 1978.

Nunca recebeu o merecido reconhecimento por seus grandes feitos, mas era muito admirado por Niemeyer, que o considerava o homem mais culto do Brasil. Deixou grandes contribuições para e engenharia e para a poesia brasileira.

Fontes: Vermelho, Veja, Uol

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Um pensamento sobre “Engenheiros notáveis – Joaquim Cardozo

  1. Nesse aspecto considero, que o reconhecimento nem sempre vai ao encontro do autor da obra. Muitas vezes é a título póstumo. Isto deve fazer de nós pessoas extraordinárias, perseverantes na auto confiança até ao fim.

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