Carreira: Professor Universitário

Na nova sessão PET Civil entrevista apresentaremos entrevistas com profissionais do meio acadêmico e privado buscando abranger as diferentes visões de mundo que permeiam cada um destes profissionais. Os temas são os mais variados. Nosso primeiro entrevistado é Delfim Soares Júnior, professor do Departamento de Estruturas da Universidade Federal de Juiz de Fora. 

As escolas de engenharia estão formando engenheiros suficientes? Como a disponibilidade de professores de engenharia no mercado influencia essa realidade?

Para a atual demanda brasileira, o número de formandos em engenharia não é suficiente. A demanda cresceu muito nos últimos anos e o quadro atual é extremamente contrastante com o de nosso passado recente. É sabido que a demanda por profissionais em engenharia aumenta de acordo com o desenvolvimento econômico, bem como o interesse de estudantes pela formação em engenharia se intensifica de acordo com esta demanda. Todavia, esta relação não é linear. Historicamente, várias nações desenvolvidas convivem com um déficit de engenheiros. O problema brasileiro é que nossa carência e atual demanda por infraestrutura é muito grande, o que torna a situação mais dramática que o usual. Infelizmente a carência por engenheiros no mercado brasileiro permeia várias esferas, e há também a carência de profissionais de ensino de engenharia adequadamente qualificados. Neste caso, a situação tem complicadores adicionais, pois, na realidade do ensino universitário brasileiro, as leis de mercado têm influência limitada, uma vez que os salários são basicamente uniformes considerando-se todas as áreas de conhecimento. Assim sendo, a escassez de profissionais de ensino de engenharia tende a se agravar em um quadro de alta demanda por engenheiros, podendo gerar um círculo vicioso. Atualmente há um grande déficit de profissionais de ensino de engenharia adequadamente qualificados no Brasil.

O que lhe fez optar pela carreira de professor universitário?

Não tinha interesse em ser professor universitário. No começo do curso de graduação queria ser um profissional liberal nos moldes clássicos. No meio do curso, comecei a me envolver com pesquisa em programas de iniciação científica e estágio no centro de pesquisa da Petrobrás. Ao final da graduação, já tinha grande interesse por esta área e tencionava seguir carreira em centros de pesquisa. Fiz mestrado, doutorado, pós-doutorado etc. por “amor a arte”, sem focar em aspectos financeiros. Devido a “condições de contorno” favoráveis, pude realizar estas etapas de forma relativamente rápida, com boa produtividade. Tive a oportunidade de trabalhar em bons centros de pesquisa nacionais e internacionais e me tornar um profissional bem qualificado ainda novo. Comecei então a trabalhar e/ou coordenar projetos de estado da arte, no limiar do conhecimento, usualmente ligado a Petrobrás. Era bem remunerado e nesta época o mercado de engenharia não era bom. Com o passar do tempo comecei a repensar meus valores, achei que seria mais interessante investir em qualidade de vida. Optei por mudar para uma cidade pequena, ter mais tempo livre, poder focar em alguns estudos de interesse pessoal e não só os de interesse do mercado. Neste momento, pela primeira vez, pensei em ser professor universitário. Assim, com 27 anos de idade, comecei a lecionar na UFJF, após prestar concurso público para professor adjunto. Apesar de tal mudança de carreira ter implicado em uma redução de cerca de quatro vezes em minha renda, esta foi uma decisão bastante consciente.

Como é sua rotina profissional? Como é dividida a carga horária pesquisa/ensino/extensão?

A grande vantagem da carreira universitária pública brasileira é que há muita liberdade, possibilitando atuação em consonância com interesses pessoais. Neste sentido, pelo meu histórico de formação e interesse de atuação, procuro trabalhar mais intensivamente em pesquisa. É muito difícil desenvolver pesquisa de ponta em universidades de pequeno porte. Esta foi minha maior dificuldade quando comecei a atuar na UFJF. Para contornar estas limitações, ao longo dos últimos cinco anos, busquei criar uma rede de colaboração internacional e tenho então trabalhado com pesquisadores renomados de vários centros de pesquisa internacionais, mais destacadamente de Portugal, Alemanha, Inglaterra e Eslováquia. Esta atuação internacional consome um período relativamente grande da minha grade de trabalho, já que passo em média de 1 a 3 meses fora do país, anualmente, em visitas técnicas, congressos etc.. Com relação ao ensino, leciono atualmente nos cursos de engenharia civil (graduação) e elétrica (mestrado e doutorado) da UFJF, e sou professor colaborador da COPPE-UFRJ, no programa de engenharia civil (mestrado e doutorado). Basicamente, em pós-graduação, tenho atuado lecionando matérias de métodos numéricos (método dos elementos finitos, método dos elementos de contorno etc.) e, em graduação, lecionando matérias de análise estrutural. Em acréscimo a atuação/coordenação de projetos nacionais/internacionais e atividades de ensino e orientação, coordeno o Laboratório Interdisciplinar de Modelagem Numérica da UFJF (LIMON) e integro o quadro editorial e revisor de periódicos internacionais, bem como de organização de congressos internacionais, o que esporadicamente me gera alguma carga horária de trabalho.

Você esteve em contato com diversas universidades em outros países… na sua opinião, em que o Brasil difere dos demais países? Há grandes investimentos?

Existem algumas diferenças importantes. No Brasil não há investimento privado considerável na universidade. Esta é uma carência brasileira importante, principalmente do setor tecnológico. Isto tem melhorado com o tempo, mas ainda está muito aquém do que ocorre em países ditos desenvolvidos. A produção brasileira de patentes é irrisória. A produção científica tem crescido, ocorreram melhorias de investimentos neste sentido, mas lacunas muito grandes ainda existem. As universidades públicas brasileiras são muito engessadas, com elevada inércia, o que as torna pouco competitivas em vários aspectos. Nas universidades brasileiras não há uma política significativa de premiação do mérito. Há também um paternalismo exagerado da universidade com relação aos seus alunos, o que impossibilita que profissionais mais versáteis e maduros sejam gerados. Em termos gerais, considero a universidade pública brasileira boa, mas estamos muito focados em ensino e transmissão de conhecimento. Isto não é suficiente. Para sermos grandes temos que criar conhecimento.

O que é imprescindível para se tornar um professor universitário?

Na área de engenharia, atualmente, é necessário muito amor à vida acadêmica (mesmo que apenas em algumas das suas muitas vertentes). Se o interesse for financeiro, o indivíduo já sucumbe nas etapas de obtenção de titulação (i.e., obtenção dos graus de mestre e/ou doutor). Estas são etapas de longo prazo e extremamente mal remuneradas. Mais uma vez, aqui recaímos na uniformidade dos valores, independente da área de conhecimento. Isto inviabiliza a formação avançada clássica, em engenharia, em tempos de mercado aquecido. Temo que, devido a algumas configurações distorcidas existentes, a médio prazo, a carreira de professor universitário acabe se tornando opção apenas para os profissionais menos hábeis do mercado, caracterizando uma inversão total de valores. Este quadro pode comprometer toda cadeia formadora de profissionais, gerando situações de grandes prejuízos em amplos níveis. Neste momento creio que a pergunta “o que é imprescindível para se tornar um professor universitário?” não deva ser direcionada em termos de aptidões de um indivíduo, mas sim em termos de interesse de uma sociedade. Estamos num ponto chave de nossa história, a economia tem demandado mais profissionais qualificados e houve uma considerável expansão dos centros universitários nacionais. Perguntas mais viscerais devem ser postas em pauta neste momento.

 

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