Semana Especial de Segurança no Trabalho – Entrevista com profissional

Por Júlia Castro Mendes

Na Semana Especial de Segurança no Trabalho, hoje contamos com a experiência e a visão de quem lida há anos com o “produto final dessa carreira: o ser humano”.

Em uma conversa informal, o técnico em Segurança no Trabalho Marcelo Mendonça, hoje coordenador do curso na Sociedade Além-Paraibana de Educação, SAPE, nos contou sobre o que há de mais importante no segmento de Segurança no Trabalho com ênfase na construção civil.

Marcelo Campos Mendonça, se formou no SENAI de Friburgo. Já trabalhou nas empresas Holcim, Lafarge e Votorantim, como prestador de serviço. Atualmente é Técnico de Segurança no Trabalho da empresa Zamboni Comercial e dá aulas na SAPE – Sociedade Alem-Paraibana de Educação.

Marcelo, há quanto tempo você trabalha na área de segurança no trabalho?
Eu estou na área de segurança desde 2006, quando eu comecei o estágio no pólo cimenteiro em Cantagalo da companhia Holcim. Lá eu fiz estágio de 1 ano, e tive contato não só com um grau de risco mais elevado de segurança, como também tive oportunidade de trabalhar com um sistema de gestão integrado nos moldes internacionais de legislação, rotinas de auditoria, planos de ação… enfim, não só baseado nas normas brasileiras.

Qual foi o maior desafio que você já enfrentou nesses anos no ramo?
O maior desafio está nas empresas que ainda não cultivam essa ideia da prevenção. Entende-se ainda muito a prevenção de acidentes como um gasto, e não como um investimento. Eles não observam o custo-benefício. Eles não observam que um ambiente saudável é um ambiente mais produtivo. E não só por parte das empresas e empregadores, também por parte dos empregados, pessoas com vícios de trabalho, 30 anos fazendo a mesma coisa, e acham que nunca vai acontecer um acidente. Então, está mais na cultura do que na implantação de qualquer sistema, por mais complexo que ele seja. É mais complicado lidar com o ser-humano mesmo.
 
Como você acha que está o mercado de trabalho atualmente? Há demanda deste profissional? Em que nível?
No meu ponto de vista, o mercado de trabalho está aquecido em todo o segmento. Agora, especificamente na área de segurança, está muito bom. A demanda para atender esse mercado não está suficiente. Muitas pessoas iniciam o curso técnico em segurança no trabalho e depois que veem as responsabilidades, as atribuições, a questão legal, as reponsabilidades voltadas para o civil e criminal… vão desistindo. Muitos concluem o curso, e por opção não exercem a profissão. (…) Como: “eu vou fazer o curso de segurança para ver ‘qual é’”, quando na verdade tem que ter um sentimento pela profissão.
 
Sobre o curso técnico, em linhas gerais, quais são as temáticas abordadas para a formação do profissional?
São, no meu ponto de vista, 3 pontos importantes: primeiro vem a questão  legal, a legislação. Ele [o estudante] vem tomando ciência das responsabilidades e atribuições dele. O segundo aspecto é a questão do ser-humano. A pessoa deve ter um sentimento, ter uma percepção para identificar nas pessoas que trabalham no local um comportamento complicado, uma pessoa com desvio de comportamento nas suas atividades, uma pessoa que não se planeja, uma pessoa que não se organiza… enfim, tem esse aspecto psicológico. E um outro ponto é o cuidado. A segurança no trabalho hoje está muito burocratizada, é muito documento. Então, as empresas e o próprio profissional podem querer atender essa questão burocrática e esquecer o lado humano. A segurança no trabalho tem um cunho social muito importante, que é evitar pessoas dependentes da Previdência Social, pais de família encostados, enquanto muitos profissionais estão centralizados na burocracia.
 
Existem diversos cursos técnicos e superiores nesse ramo no país. Você acha que a formação atual é adequada às necessidades do dia-a-dia do profissional? Os alunos estão saindo das instituições preparados?
É uma questão muito individual. (…) O profissional tem que ir à busca da informação. Existem hoje revistas especializadas, o Fundacentro, que tem uma fonte de pesquisa muito importante, e procurar outros idiomas é muito importante. Por que um dos principais pontos da prevenção de acidentes é uma boa comunicação. A pessoa que vai se formar nessa área tem que buscar além do que ela aprende em sala de aula. É ela quem vai fazer a diferença.
 
Qual o órgão regulamentador da área? Ele atua de forma satisfatória às necessidades do profissional?
Atualmente, quem regulamenta nosso trabalho é o próprio Ministério do Trabalho. Eu acredito, no ponto de vista particular, que caminha pra ser o CREA. Por que o Ministério do Trabalho está desburocratizando o trabalho dos servidores. Exemplo claro, é a alteração na norma que regulamenta a CIPA, que antes pedia para que toda a CIPA fosse protocolada na delegacia do Ministério do Trabalho. Hoje ocorreu uma mudança: não precisa mais fazer esse registro. O que você entende é que eles estão diminuindo a papelada dentro das delegacias regionais de trabalho. É um caminho, correto, que o Ministério está tomando para diminuir a demanda de funcionários dentro das delegacias. Eles estão pensando em colocar pessoas mais em campo, na forma de fiscais e orientadores, que é o papel do Ministério do Trabalho.
 
Na área de construção civil, quais são, na sua opinião, as qualidades exigidas para o técnico em segurança no trabalho?
Experiência em trabalho em campo e ter bom relacionamento interpessoal. Você tem que trazer os funcionários pra você. Não adianta criar a imagem do fiscal no canteiro de obras, você tem que trazer as pessoas para que tenham confiança em você. E, sim, a parte burocrática que tem que ser feita. Como eu disse, hoje está muito burocratizado, então, tudo que é feito em campo tem que procurar evidenciar, provar o que está sendo feito. Quando você sofre uma auditoria fiscal, o fiscal além de ir a campo fazer as perguntas aos operários, também vai querer a papelada, as evidências do que está sendo feito. É importante então, saber se relacionar bem e saber também empregar essa burocracia no dia-a-dia do trabalho em campo. É um perfil importantíssimo, ainda mais na área de construção civil, por se tratar de um lugar com um nível cultural mais reduzido dos funcionários.

Inclusive, o índice de acidentes na construção civil é o segundo maior, só perdendo para a área rural.
Nesses 6 para 7 anos que eu tenho uma observação mais técnica na área de construção civil, a situação está melhorando muito. A gente chega em uma obra hoje, é visível a preocupação de utilização dos EPIs, plataformas delimitadoras de queda, uma sinalização no canteiro… a resistência maior está nos operários, na maioria dos casos.



 
Qual a maior dificuldade enfrentada nesta área de trabalho?
A conscientização dos trabalhadores. E dentro dessa questão dos trabalhadores, eu incluo também os encarregados. Existem encarregados bons, produtivos, mas com a mentalidade meio arcaica, o que dificulta a intenção prevencionista. (…) O interessante é que você não consegue classificar todos de uma única forma. É também importante saber identificar os líderes naturais do grupo. São os agentes multiplicadores.
 
Você gostaria de deixar uma mensagem final?
O trabalho tanto do técnico de segurança quanto do engenheiro em segurança, tem um produto muito valioso. O nosso produto final se chama ser-humano. Não adianta você ter um sistema de gestão complexo e alinhado se acontecer uma fatalidade, ou seja, se uma pessoa vier a falecer ou sofrer um acidente que vai ficar uma sequela. É um pai que deixa de alimentar um filho, é uma pessoa que hoje depende de parentes, o que é muito triste… O nosso produto é o ser-humano. Essa é a mensagem que eu deixo.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Semana Especial de Segurança no Trabalho – Entrevista com profissional

  1. Pingback: Semana Especial de Segurança no Trabalho – Entrevista com o Profissional II « Pet Civil – UFJF

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s