Formação Especialista x Formação Generalista

Das varias tendências que marcaram o século XX, uma das mais importantes foi a extraordinária valorização do conhecimento especializado, frequentemente em detrimento da formação geral, mesmo nos ambientes universitários que deveriam preservá-la. Hoje, a aceleração das mudanças tecnológicas coloca em xeque essa tendência.

Alguns alunos e professores que optaram por formação global se deparam com barreiras de ordem estrutural. Além da área acadêmica, os questionamentos sobre “Qual direção seguir?” também inquietam profissionais do mercado. O que é melhor: uma formação generalista ou especialista?

Um dos objetivos do Programa de Educação Tutorial – o PET, ao desenvolver ações de ensino, pesquisa e extensão de maneira articulada, é permitir uma formação global, tanto do aluno bolsista quanto dos demais alunos do curso, proporcionando-lhes uma compreensão mais integral do que ocorre consigo mesmo e no mundo. Ao mesmo tempo a multiplicidade de experiências contribui para reduzir os riscos de uma especialização precoce.

O especialista já foi definido como alguém que sabe quase tudo sobre quase nada. Em oposição, um generalista seria alguém que soubesse quase nada sobre quase tudo. Ambas definições são claramente pejorativas e caricaturais, ainda que só atinjam esses efeitos por carregarem algum sabor de verdade.

O que se observa pesquisando os cursos de graduação oferecidos pelas universidades brasileiras é que existe uma superespecialização, que, além de reduzir a visão de complexidade da realidade, diminui a mobilidade no mercado de trabalho. Muitas segmentações da Engenharia, por exemplo, poderiam ser estudadas em uma especialização em nível de pós-graduação. Nos últimos anos, os formados em engenharia de Telecomunicações estavam com dificuldade de entrar no mercado. No entanto, questiona o diretor da Escola Politécnica da USP José Roberto Cardoso: “Um profissional de Telecomunicações não poderia trabalhar na Engenharia Elétrica?” A resposta, ao menos teoricamente, é “sim”, mas a denominação específica o prejudica.

Para Cardoso, com o milagre econômico da década de 1970, as empresas passaram a querer profissionais que saíssem prontos das universidades. A partir daí, proliferaram as especializações em Engenharia, que hoje chegam a 280 – entre elas, Mecatrônica, de Materiais, Naval, Química, Automotiva, de Telecomunicações… Na Europa, estas não passam de 14.

Tal como o baralho de cartas, o baralho das profissões também tinha apenas algumas dezenas de ocupações até o século XIX. Ao longo da primeira metade do século passado, elas se ramificaram em centenas de especialidades. No pós-guerra já eram milhares, e na virada do século dezenas de milhares. Neste ritmo, logo muitas economias terão mais especialidades do que especialistas, inviabilizando de vez a noção territorial do conhecimento.

Num baralho cada vez maior, é natural que uma única carta seja cada vez mais valorizada: o curinga, aquela que é capaz de assumir o papel  das demais. O verdadeiro profissional do futuro será aquele que melhor se igualar ao curinga. Mas como preparar os jovens de hoje para serem curingas no mundo das profissões e especialidades? A resposta ainda não é clara, mas já se faz necessária. A primeira providência é simplesmente parar de estimular os jovens a abraçarem precocemente uma carreira especializada. Muitos jovens preferem, como cantava Raul Seixas, “ser uma metamorfose ambulante”. Eles estão certos. Ao invés de dissuadi-los, devemos prepará-los para conduzir suas metamorfoses com competência.

Fontes:

Carta Capital

Revista da Cultura

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2 pensamentos sobre “Formação Especialista x Formação Generalista

  1. Será que a formação especialista é valorizada como deveria no Brasil?
    Essa é uma grande questão… Fora do meio acadêmico, doutores em assuntos muito específicos têm muito mais dificuldade de achar emprego (devidamente valorizado) do que pessoas que entendem “de tudo um pouco”

  2. Pingback: Formação Especialista x Formação Generalista « Pet Civil – UFJF « Mercado de Comunicações

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