Desentortando Prédios

Atração turística para quem caminha pelo calçadão e uma preocupação para quem mora neles. Assim podem ser definidos os edifícios sem prumo da orla de Santos, no litoral paulista.

Pelo seu caráter litorâneo e pelo fato de ter sido construída em parte sobre antigos terrenos de manguezais, a cidade de Santos tem um perfil de solos dos mais difíceis no país para a construção de fundações. Por este motivo, uma série de edifícios foram erigidos ao longo do século XX (especialmente a partir da década de 1960) com fundações executadas a partir de equívocos de sondagem ou de projeto. A especulação imobiliária surgida com a explosão do veraneio em Santos foi a responsável por tais erros, já que os edifícios eram construídos rapidamente para abrigar muitos turistas.

Com o tempo, tais edifícios passaram a sofrer acentuados recalques diferenciais: tornam-se “tortos” (ou seja, perdem o prumo) aos olhos dos pedestres situados na praia. Recentemente os “prédios tortos” da orla de Santos estão virando atração turística: são cerca de 90 prédios com esta característica. Estão concentrados na orla do Boqueirão, Embaré e Aparecida. O reaprumo ou a implosão e reconstrução são soluções possíveis. A primeira opção, menos impactante que a segunda, já foi executada com sucesso no edifício que era considerado o mais inclinado da orla (o denominado ‘Núncio Malzoni’, no bairro do Boqueirão), o qual tinha mais de 2 metros de inclinação do topo em relação à base (a inclinação da Torre de Pisa é de aproximadamente 4 metros).

A questão da qualidade do solo para construção de edifícios na Cidade é o alvo de uma pesquisa da professora de Mecânica dos Solos, Nilene Janini de Oliveira. Ela desenvolveu uma dissertação de mestrado comparando recalques (inclinação) calculados para um prédio, analisando cada etapa da obra. De acordo com Nilene, Santos tem solo considerado de má qualidade para a construção de edifícios e, nesse aspecto, só perde para a Cidade do México.

O solo da cidade é formado de oito a 12 metros de camada de areia medianamente compacta, seguida de 20 a 40 metros de uma camada de argila marinha, podendo depois ter outra faixa de areia ou não, e por último uma camada dura (formada por rochas) que varia de 40 a 50 metros.

Para saber a resistência do solo é feito um relatório de sondagem. Retira-se uma amostra de cada camada, que é levada para um laboratório, onde se detecta o tipo de fundação a ser feita. Há dois tipos de fundações: rasa (em que se utilizam sapatas), quando se tem um solo que suporta a carga dos pilares, e profunda (onde geralmente se utilizam estacas) quando o solo é menos resistente.

O custo de uma fundação profunda é três vezes maior do que o de uma rasa, mas às vezes esse recurso é inevitável. É em função disso que muitos economizam quando não devem, como explica o inspetor do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura de Santos (CREA), Orlando Carlos Batista Damin. “A maioria dos prédios da orla da praia necessita de fundação profunda e se está torto, foi por pura economia, já que este tipo de técnica, necessária, é de alto custo”.

Assista à reportagem do Jornal Nacional a respeito do trabalho de aprumo do Núncio Malzoni

Dados técnicos da obra do Condomínio Núncio Malzoni concluída em 2001

Construído em 1967, o edifício de dezessete andares (com um apartamento de 240 metros quadrados por andar) afundou de forma irregular, tombando para seu lado direito. A diferença entre uma lateral e outra é de 45 centímetros, o que representa um deslocamento do topo de 2,10 metros. A cada ano, o desaprumo aumentava 1 centímetro. “O prédio poderia ruir em oito anos”, afirma o engenheiro Paulo de Mattos Pimenta, consultor de estruturas.

As obras surpreendem pela ousadia. O prédio, com suas 6.300 toneladas, ficou suspenso por catorze macacos hidráulicos e era levantado em milímetros a cada dia. “O grande desafio era movê-lo sem abalar a estrutura”, explica o engenheiro Carlos Eduardo Maffei, autor do projeto. “Usamos sete vigas de concreto abraçando os pilares para que todo o bloco fosse deslocado, sem trincar.”

Os vãos foram preenchidos com chapas de aço que servirão de suporte quando os macacos forem retirados. Estes serão substituídos por uma estrutura de concreto que ligará as vigas às novas estacas, apoiadas em uma camada de solo rochoso a 55 metros de profundidade. A fundação original tinha 1,5 metro. Nenhum morador precisou deixar o prédio durante as obras. Foi gasto 1,5 milhão de reais, quase 90.000 reais para cada condômino. Apesar do custo, a tecnologia empregada foi a alternativa econômica mais viável para desentortar o Núncio Malzoni. Há outros 97 prédios inclinados na orla santista.

Via Wikipedia, Universo Cultural, Diário Oficial de Santos, Novo Milênio

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